Coitado tem a ver com coito? E denegrir, mulato ou judiar?

Sendo ou não um amante da música brasileira, certamente você conhece “Asa Branca”, famosa canção de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira. Estou falando daquela que diz assim: “Eu perguntei a Deus do céu/ Por que tamanha judiação”. Lembrou? A judiação mencionada na música do Rei do Baião é a seca que assola o sertão nordestino, deixando-o “qual fogueira de São João”. Bonito e tocante. Mas há quem diga que o substantivo feminino judiação é politicamente incorreto e deveria ser evitado. Por quê? Porque, embora o sentido atual mais empregado seja o de fazer de alguém alvo de escárnio ou de maus-tratos, o sentido original do termo é ato de judiar, ou seja, judaizar, adotar práticas judaicas. Como se vê, no sentido original (ou etimológico, como diria um estudioso), judiar e seus derivados embutem um preconceito em relação ao povo judeu. Portanto, o melhor é buscar um sinônimo –no caso da música, caberia muito bem a palavra sofrimento. Como esta, há algumas palavras que deixaríamos de empregar, se tomássemos conhecimento de seu sentido original.

DENEGRIR
Eis mais um exemplo de palavra politicamente incorreta: o verbo denegrir (ou denigrir), do qual se origina o adjetivo denegrido (ou denigrido). Geralmente, empregamos este verbo em referência a mancha na reputação de alguém: “O senador teve sua honra denegrida pela imprensa”. E sabe qual o sentido original da palavra? Acertou em cheio: tornar negro. Ora, o preconceito racial é evidente: se é negro, não é bom.

MULATO
Outro exemplo é mulato, substantivo masculino que empregamos para nos referir a pessoa mestiça, nascida de pai branco e de mãe negra (ou vice-versa). Mas o sentido original contém um sério preconceito racial: é uma referência à cor da mula, fêmea do mulo, híbrido resultante do cruzamento de cavalo com asna ou de asno com égua. A palavra mulato surgiu na primeira metade do século 16, quando os negros eram escravizados e tratados como animais. Filhos de pais brancos e mães negras eram comparados àquele animal de carga.

COITADO
Para completar a lista, vem alguém e diz que a palavra coitado – que geralmente usamos em referência a alguém infeliz, desventurado– também não pega nada bem. Sabe por quê? Porque, na origem, ela seria aparentada com a palavra coito, que significa cópula, ato sexual. Trocando em miúdos, quando chamamos alguém de coitado, estaríamos dizendo que o dito cujo teria sido vítima de coito –daí, a infelicidade do sujeito. Mas não é nada disso. A semelhança de grafia, muitas vezes, pode induzir a erros. Se dermos uma olhadinha no dicionário, veremos que o adjetivo e substantivo masculino coitado é derivado do verbo coitar, que significa desgraçar, magoar. Este mesmo verbo está na raiz do substantivo feminino coita, termo arcaico que quer dizer dor, aflição, desgosto. Dito isso tudo, só espero que você não entre em parafuso e deixe de usar certas palavras por desconfiar de algum sentido pouco conhecido. Em caso de dúvida, o melhor a fazer é recorrer ao dicionário. E o que fazer com a “Asa Branca” de Gonzagão? Mudar a letra? O melhor a fazer é deixá-la como está, consagrada que é como pérola de nossa música popular, ou não?

Fonte: http://www.pellegrino.com.br/revista/materias.asp?id=148

One thought on “Coitado tem a ver com coito? E denegrir, mulato ou judiar?

  1. Gente, cuidado, por mais que as narrativas etimológicas sejam interessantes, não são necessariamente verdade. Coitado vem de coita, não de coito. É sofrer da “dor de amar”, nada tem a ver com o ato sexual. Denegrir é mais complexo. Denegrecer já existe no português medieval (anos 1200-1300), denigrir é do século XVII, denegrir é do século XVIII (fonte: Dicionário etimológico da língua portuguesa, do Antônio Geraldo da Cunha). O complexo é saber o quanto do sentido não vem do lúgubre, da escuridão, da noite, da ausência de luz, da ausência de brilho, da ausência de ver mesmo e o quanto vem da associação com os negros. Denegrir a imagem é de fato tornar a imagem negra – talvez como a noite, sem que outros a enxerguem, com menor brilho, menos visível, mais escura; por outro lado talvez seja sim preconceituosa, associada uma imagem supostamente pejorativa do negro. Não conheço alguém que tenha debatido com profundidade e chegado a uma conclusão sobre o denegrir, mas, pelas datas de registro no português (1200-1300), tendo à opção não preconceituosa.

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