Em 1975, minha família fugiu de Angola numa guerra civil. Meu pai havia conseguido lugares no último voo comercial da Varig saindo de Luanda. Sabíamos o destino: Brasil. O que não sabíamos era quase todo o resto.
Para passar pela alfândega sem ter o dinheiro confiscado, meus pais esconderam as notas no fundo de um pacote de bolachas e colocaram o pacote nas mãos do meu irmão mais novo, ainda de colo. Ninguém desconfiaria de uma criança de colo com um pacote de bolachas na mão. O problema é que a fila era longa. Ele ficou com fome e começou a comer as bolachas, uma a uma. Minha mãe tirou o pacote das mãos dele. Ele começou a chorar, chamando a atenção dos guardas. Ela devolveu o pacote. E ficou olhando, sem poder fazer nada, enquanto ele comia.
Meu pai não embarcou naquele voo. Ficou para cuidar da empresa e dos funcionários que não haviam conseguido sair. Não sabíamos quando, ou se, voltaríamos a vê-lo.
Quando finalmente nos sentamos no avião, ela pegou o pacote. Sobravam duas bolachas antes de chegar no dinheiro.
Ter um destino não é o mesmo que ter uma meta.
Minha família sabia para onde ia. Mas não havia critério, prazo ou forma de saber, em cada momento da fila, se ia dar certo. O progresso estava acontecendo. O risco também.
É exatamente assim que a maioria das empresas trata programas corporativos de idiomas.
O destino existe: queremos uma equipe com inglês avançado, fluente, capaz de atuar em reuniões internacionais. Mas não há definição do que isso significa para aquele cargo específico. Não há critério de chegada. Não há forma de saber, ao longo do processo, se o programa está funcionando ou se as bolachas estão acabando.
O resultado é previsível. Colaboradores estudam por meses, apresentam presença e engajamento, e o gestor só descobre que o nível não era suficiente quando a pessoa está sentada numa reunião internacional sem conseguir se expressar.
Progresso não é meta. Presença não é resultado. E “avançado” não quer dizer nada sem um critério que defina o que avançado significa para aquela função, naquela empresa, naquele contexto.
Na BIRD, nenhum programa começa sem uma meta linguística definida: habilidade específica, nível numérico, prazo e forma de verificação. Não porque somos metódicos por natureza. Mas porque já vimos o que acontece quando se sabe o destino mas não se controla o caminho.