Por que o candidato aprovado no teste de inglês do processo seletivo fica quieto na reunião

Quando eu tinha 10 anos, liguei para a recepção de um hotel em Joanesburgo e pedi café da manhã. Cinco minutos depois, um carregador entrou no quarto, pegou todas as nossas malas e nos levou ao aeroporto. Fomos embarcados sem sequer escovar os dentes e muito menos o café da manhã.

Anos depois entendi o que aconteceu. Eu havia pedido “breakafast”. A recepcionista entendeu “be fast”. Eu falei. Fui ouvido. Não fui compreendido.

Esse gap entre emitir e comunicar é o mesmo que aparece todos os dias em processos seletivos corporativos.

“Precisamos de alguém com inglês B2.” O candidato passou no teste. Seis meses depois participa das reuniões internacionais, mas fica quieto e não interage.

O problema raramente é o candidato.

Em avaliações linguísticas que conduzimos em processos seletivos, um padrão se repete: candidatos com bom desempenho nas habilidades passivas, gramática, vocabulário e compreensão de texto, apresentam um gap significativo nas habilidades ativas, comunicação oral e escrita. Essa diferença pode chegar a 30 pontos percentuais. O candidato entende, lê e interpreta bem, mas não consegue se expressar com autonomia quando a situação exige.

Há uma razão estrutural para isso. A maioria dos profissionais brasileiros aprendeu inglês em aulas em grupo, com tempo efetivo de prática oral reduzido. Em uma aula de 60 minutos com 9 a 12 alunos, cada um tem em média 3 a 4 minutos de prática oral real. O resultado é uma competência linguística desbalanceada: habilidades passivas bem desenvolvidas, habilidades ativas significativamente abaixo. Não é falta de dedicação. É o reflexo direto de como o idioma foi aprendido.

Nos últimos anos, plataformas de recrutamento passaram a incluir o inglês como módulo dentro do processo seletivo. A lógica operacional faz sentido: menos fornecedores, menos gestão. O ponto de atenção é outro: um teste de compreensão de texto avalia uma habilidade. Em ambientes profissionais globalizados, quatro habilidades estão em jogo.

Se o processo mediu apenas compreensão, o gap não apareceu. E o gestor descobre depois.

Nas multinacionais, há ainda outra camada. Critérios linguísticos frequentemente vêm da matriz, aplicados de forma uniforme a todos os países, sem considerar como o idioma é aprendido e usado em cada mercado.

O critério existe. A pergunta é se ele mede o que o cargo de fato exige.

Se você usa inglês como critério eliminatório no processo seletivo, o que o seu teste está efetivamente avaliando? Se quiser revisar isso antes da próxima contratação, posso ajudar.

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