Eu tinha uns treze anos quando levei nosso cachorro, Walker, para passear num parque perto de casa em Basiléia, Suíça. Ele parou na entrada e fez as necessidades no lugar errado.
Do nada apareceu um policial e começou a falar comigo em alemão. Eu disse, em inglês, que não falava alemão. Ele trocou para o inglês. Eu disse, em francês, que não falava nem alemão nem inglês. Ele trocou para o francês.
Já quase desistindo, me ocorreu uma última ideia.
“Moço, eu não falo nenhum outro idioma que o português. Não entendo nada o que o senhor está falando.”
Ele olhou para mim e respondeu, em português perfeito: “Não há nenhum problema. Seu cachorro fez as necessidades em local proibido. A multa é de 100 francos suíços.”

Tentei delegar o problema para a barreira do idioma. Ele recusou a delegação três vezes seguidas. No final, a responsabilidade voltou para mim, em português, sem saída.
Guardo essa história até hoje porque ela ilustra algo que vejo repetidamente em programas corporativos de idiomas.
O RH contrata um fornecedor para delegar a execução, até aí é correto e necessário. Mas delegar a responsabilidade pelo resultado é outra coisa. O foco deveria estar em diagnóstico, critérios de sucesso e metas mensuráveis.
Em definir o que o idioma precisa fazer em contextos reais de comunicação. Avaliar metodologias, controlar faltas e gerir professores é competência das escolas, não do gestor.
E quando o resultado não aparece, ninguém sabe de quem é a responsabilidade. O fornecedor entregou as horas. O colaborador compareceu. O gestor aprovou. Todos fizeram a sua parte. Mas ninguém perguntou ou mensurou se alguém aprendeu alguma coisa útil.
O policial suíço não aceitou minha tentativa de escapar pela barreira do idioma. A realidade corporativa também não aceita.
A pergunta não é se o programa foi entregue. É se ele resolveu o problema que precisava resolver.